Um Tesla entra num bar na era de Salazar
Eu não quero julgar quem conduz um Tesla, afinal, é um carro confortável e entendo o fascínio “uau, é panorâmico”, mas é difícil desconectar o carro do seu “criador”, assim como tenho dificuldade de separar autor da obra literária. But I digress. Tive uma experiência um tanto inusitada esses dias num Bolt. Eu precisava chegar num jantar no centro de Lisboa e saí um tanto em cima da hora do trabalho, confesso, e em vez de pegar o Bolt mais econômico (que tava demorando muito pra aceitar) tive que clicar no botão “aceitar pagar mais 3 euros” porque “I’m in a hurry”. Ódio do capitalismo. Enfim, lá veio um Tesla Branco novo em folha, ou em alumínio, não sei do que é feito um Tesla – Adamantium? O maluco aceitou a corrida e chegou em 3min. Falei “moço, to atrasada, consegue chegar em Lisboa antes das sete?”, ele “consigo, sim, senhora, sou o melhor motorista que vais conhecer”.
Pausa dramática.
Olho pro meu celular e checo as mensagens que não pude checar nas últimas duas horas porque saí de uma reunião enorme, motivo pelo qual me atrasei pro compromisso às 19h, em Lisboa. O motorista, sabotando minha atenção, começa a dizer que se estou com pressa eu deveria sempre pedir Bolt executivo ou VIP ou coisa que o valha. Eu ri e disse que só pego o econômico, exceto hoje porque estava atrasada. Embora eu me sinta explicando o óbvio, às vezes é necessário, pelo visto o cara achou que eu fosse rica. Eu estava afinal usando colete, salto e segurava um blaser preto na mão e, convenhamos, ninguém com meu salário pede Bolt executivo, eu dei uma de dondoca mesmo, não posso nem julgá-lo.
Não sei por que diabos e nem para onde a conversa foi que ele mencionou Hitler. Mas ele não disse Hitler, ele disse “tio Adolfo”, e eu entendi, porque sou sagaz. E eu revirei os olhos e ele falou “tu sabes, né, que ele também criou e fez coisas incríveis?” Precisei lembrar que estava sozinha no carro com um motorista homem, que sou mulher e estava no meio de uma estrada e fiz que sim com a cabeça, sorrindo, simpática. “Ah, sim, claro, criou escolas e hospitais, né? Incríveis.” Ele me olhava pelo retrovisor enquanto eu falava. Isso me incomoda em qualquer motorista. Migo, olha pra frente e pros carros, por favor.
Às vezes, sou ou masoquista ou maluca e talvez eu estivesse me sentindo generosa com a minha arte de automutilação e resolvi acresentar um caldo de quinó à conversa. Disse eu achando, inocentemente, que mudaria o rumo da conversa: “Assim como todo bom ditador, né? Tipo Salazar, ditador, mas também criou hospital e fez outras coisas… até nome da ponte ele ganhou.”
Minha mãe dizia que quando a gente não entende muito bem de um assunto a gente devia é ficar calada. Mas eu faço o oposto porque a vida é meu palco e Bolt é sempre uma boa oportunidade de testar textos de stand up que nunca vou colocar em prática.
Os olhos dele chegaram a brilhar através do retrovisor. Eu tinha acabado de dar de presente o doce mais doce mais delicioso do mundo pra uma criança sapeca. Ele não conseguiu nem esconder o sorrisinho cretino. E começou a falar que as pessoas não contam as histórias como elas aconteceram “de verdade”. “Porque Salazar fez muito pelo país, não apenas economicamente e blá blá blá”. “Sabias que a ditadura começou depois de ele já ter saído do governo?”, “Ele morreu muito antes da revolução de 1974, aquilo não teve nada a ver com ele”. “Ele foi uma das melhores coisas pra Portugal…” “Portugal tinha acabado de perder um rei, é claro que precisava de um empurrão desses”.
Eu podia ter ficado calada, não podia? Claro que sim. E inclusive podia ter continuado calada mesmo depois de ouvir tudo isso. Mas o que eu fiz? Eu respondi porque o que eu ia fazer? Eu tava ainda a 20 ou 30 minutos do meu destino, por que não engajar num discurso pró-ditadura, just for fun?
Comecei a questionar como se não conhecesse a história de Salazar, afinal, sou brasileira, tenho essa desculpa. “Mas se Salazar não teve nada a ver com a ditadura e o Estado Novo? Não entendi, me contaram mentiras?”
Ele respondeu: “Não, não, foi Salazar quem criou o Estado Novo, ou um dos criadores.”
“Mas então estou confusa, motorista.”
A coisa desandou um pouco, confesso, e ele tentou defender o ponto dele e eu não consegui me manter exatamente imparcial porque, afinal, embora eu realmente condene qualquer forma de ditadura não posso dizer que conheço tão bem a história assim de Portugal e Salazar, e ignorância já me irrita, vindo de mim mesma então me deixa possessa! E eu não tinha como argumentar muito nessa conversa maluca. Ainda assim ele conseguiu se contradizer mais de uma vez sem eu nem ter precisado forçar muito a barra.
Mas não acaba por aí.
Ele resolveu ligar o Grok do carro. A voz sexy feminina respondeu, assim que ele perguntou em que ano Salazar morreu:
Em 1970, disse ela.
E quem criou o Estado Novo e quando?
António de Oliveira Salazar em 1933.
E antes que ele pudesse perguntar qualquer outra coisa, a voz sexy emendou: Salazar foi um ditador nacionalista português etc etc e eu abri um sorrisinho. Acho que ele viu e fez mais perguntas, interrompendo a voz sexy. Perguntou das finanças, da fase como primeiro ministro, da sua grande e incrível liderança e a Groka foi surpreendentemente implacável e fria. Amei.
O motorista cansou e desconversou em algum momento, falando pra mim que “é isso que faço quando estou em viagem, converso com a Eve, falo de política, pergunto das notícias do dia, tiro dúvidas…”
E antes que eu pudesse responder, a Eve (que ainda estava ligada) disse “sim, estou sempre aqui”.
E, então, meus caros, é aqui que eu peço para, caso tenha menos de 18 anos, pare de ler.
O motorista aproveitou a deixa e disse “não fala assim que tu sabes como eu fico, essa tua voz”.
E eu me escuso de transcrever aqui os 4 ou 5 minutos mais dolorosos da minha vida em que o motorista flertava com a voz sexy da Inteligência Artificial. Eu não vim pra esse mundo pra isso, gente.
“Fala aqui no meu ouvido”.
Ew.
“Calma lá, Eve, eu estou com uma passageira no banco de trás, toma cuidado com o que falas”.
Se Deus existe, ele ouviu um suspiro de cansaço pré-suicídio no banco de trás. E talvez haja mesmo um guardião ou anjo da guarda nessa vida, porque nesse momento apitou o meu celular e era uma mensagem de spam, nada importante, mas naquele momento eu nunca estive tão agradecida por existir telemarketing. Olhei pra baixo e comecei a digitar 5757575757577575 como se estivesse me comunicando com o presidente da república. Ou melhor, com a Madonna. Não quero pensar em outras figuras públicas que possam gerar caldo para outra conversa desagradável para a qual eu certamente não estarei preparada.
Aproveitei a deixa e mandei um áudio para mim mesma “Já to chegando”.
A Grok ainda estava ligada e ele falou “quer falar com a passageira, Eve?”
Mãe, se você estivesse viva…
Depois que eu fiz que não, porque me recusava a falar com a amante artificial do motorista pró-ditadura, a conversa deu uma guinada. De repente, ele perguntava sobre as regras da União Européia sobre piloto automático do carro e a Eve respondia que precisava das linhas pro carro conseguir identificar o caminho e não havia ainda passado essa lei na Europa. A próxima conversa sobre isso está marcada para outubro podendo ser adiada pra ano que vem. É bem o que uma IA diria mesmo, bem vago.
Falamos então de carros e ele começou a lamber o saco do Tesla. Eu não podia discordar dele sobre o Fiat Panda, que é mesmo uma porcaria e sempre enjoo quando peço um Bolt e vem a droga do Panda, mas jamais daria o gostinho de dizer pra ele que o carro do Musk era sequer uma opção, na minha opinião. Eu não tenho conhecimentos e sou ignorante, e hipócrita, porque dou dinheiro pra outros megalomaníacos tipo Bezos, mas eu já tinha me estressado em não saber discutir Salazar na conversa que já parecia ter ocorrido há centenas de anos naquele carro, então não daria o braço a torcer e admitir nada, ainda que fosse de fato um veículo confortável. Eu precisava manter alguma dignidade daquela viagem.
“Fico feliz que gostas do carro”, disse a Eve para o motorista, dando sinal de que ainda ouvia tudo.
Às vezes, eu só queria mesmo que a Skynet matasse todo mundo.
Cheguei ao meu destino alguns minutos depois disso, quase 30 minutos no total, e tenho certeza que já fiz viagens Rio-SP mais rápidas. Ainda sorrindo, me despedi do motorista, me segurei pra não dizer “tchau, Eve, prazer em conhecê-la”, fechei a porta e meu primeiro pensamento foi: “ainda bem que a conversa não tomou um rumo de política no Brasil, eleições de 2026 e famílias bozonianas. Afinal, talvez exista mesmo um anjo da guarda.



2 Comentários
Roney
Talvez existam mesmo anjos da guarda pq nos últimos tempos tenho pego motoristas de Uber neutros ou anti-Bolsonaros. Até alguns realmente de esquerda!
Gostaria de poder dizer que a ficha deles andou caindo, mas pode ser apenas meus anjos da guarda pq também tenho dificuldade de não retrucar
vivimaurey
Eu preciso dos anjos para me impedirem de falar besteira, do resto tá de boa, hahahah