Diário de uma escritora

Eu quero escrever

Eu quero escrever. Às vezes quero me envolver com a fantasia, criar mundos e personagens, dar voz ao que não existe. Mas, às vezes, quero falar das coisas que mexem comigo, de situações reais, de mágoas, de alegrias, de admiração e decepções; quero partilhar a dor e o aprendizado que veio com ela, quero elogiar e criticar sem magoar, porque afinal quando nós trocamos é quando genuinamente aprendemos e vivemos. Nada se faz sozinho.


No entanto, temo dizer o que penso e o que sinto. Pode ser que os amigos e os colegas vejam o que escrevo e achem que é uma indireta para eles, que a família se sinta atingida ou exposta, que a empresa onde trabalho veja de forma negativa um desabafo e se sinta atacada ou desrespeitada; pode ser que os amigos de outros tempos e os que estão longe não percebam o amor nas palavras.


Sinto que me permiti ser silenciada por alguma atmosfera do momento em que estamos vivendo ou talvez eu seja meu próprio juiz que sentenciou minha mente a uma dieta sem voz.


Eu quero escrever porque sou escritora, sempre fui, desde pequena. Tenho textos e textos digitalizados dos meus diários que mostram que a minha maneira de lidar com a felicidade e com a tristeza e os desafios é escrevendo. É como eu sou, é quem eu sou. Fiz um podcast para filosofar e tem feito um bem danado, ainda que não sejam os textos que provocam e pedem mais de mim ou das pessoas; textos esses que estão aqui na minha cabeça e não veem a luz do dia por medo.


Quando minha mãe era viva, eu brincava dizendo que me sentiria mais à vontade para dizer certas verdades do mundo depois que ela morresse, porque não precisaria mais me preocupar o que ela pensaria ou se ficaria preocupada comigo. Aconteceu o oposto. Eu nunca tive medo de escrever antes. Eu abria meu coração, sempre honesta, sempre ética, sempre com um toque de provocação, e ela se orgulhava de mim e dos meus textos, porque eles vinham de um lugar bom e do coração, ainda que fossem por vezes duros e difíceis de escrever e provavelmente de ler.


Eu escrevia cartas para amigos, no papel e por email, para minha mãe e para crushs e ex namorados. Eu sempre soube me expressar melhor por escrito. Não tenho o dom da fala. Mas sei traduzir em palavras os meus pensamentos, ainda que nem sempre sejam as mais indicadas pelos acadêmicos.


Ser imigrante não é fácil e o desafio não está em alguns choques de cultura, está no dia a dia. E gostaria de falar mais abertamente sobre isso sem ferir, sem colocar em pauta pessoas específicas ou situações específicas, queria muito que houvesse mais espaço para discutir e ser ouvida.


Ser brasileira, ser mulher, ser uma agente de mudança… tudo contribui para que minha realidade não seja a das mais tranquilas. E o fato de eu ser muito transparente incomoda muita gente. Acho que as pessoas, no geral, não estão acostumadas com esse tipo de comportamento e interpretam errado as minhas ações.


Eu lembro que minha mãe dizia “faz aquilo que acredita ser o correto, minha filha”. Ela era a pessoa mais genuína desse mundo. Você sabia exatamente o que ela pensava das coisas, o que ela sentia, e sabia também quando ela mentia para proteger alguém ou ela mesma.


Uma amiga minha uma vez me disse que eu era a pessoa mais transparente que ela conhecia. No auge da minha inocência e juventude cheguei a pensar “mas eu escondo muita coisa, tem muita coisa sobre mim que não falo, ela não faz ideia…”. Mas hoje, depois de mais de 20 anos de ter ouvido isso, percebo a verdade por trás dessas palavras.


Porque, hoje, mesmo calada, com medo de escrever o que sinto, “escondendo” tanta coisa que tenho vivido e sido feita a mim, minha transparência nunca foi tão latente. Estou confiante de que ela, e todos aqueles mais próximos, traduziriam imediatamente meu momento apenas ao olhar pra mim.

Espero conseguir um dia, em breve, aprender a lidar com tanto luto e recuperar a minha voz, de uma vez por todas.

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