Eu sou poeta e não aprendi a amar
Na música da Cássia Eller, ela diz “sou poeta e não aprendi a amar”, como se só pudéssemos observar a vida e o amor, mas nunca compreendê-lo racionalmente, justamente por ser algo que escapa a racionalidade. Algo que de fato um poeta diria.
Mas será que um poeta consegue mesmo amar?
Eu já vi num poema que a grande força do poeta é justamente não poder viver o amor pois enquanto platônico, enquanto não vivido, o desejo contido e não realizado não se transforma, não se cura, portanto permanece e insiste como ferida aberta.
O poeta não aprende a amar porque ele não é retribuído. O desejo não se transforma em paixão, que não se transforma em admiração, que não se transforma em amor e que por fim não se transforma em paz.
Eu lembro da paz que eu sentia quando amei pela primeira vez. Aquele amor que vem depois da atração, do desejo, da paixão. Poder respirar fundo e fechar os olhos, em segurança. A conclusão de que estar no mundo finalmente faz sentido, de que a vida é feita desses momentos de paz.
O poeta não vê sossego. Ele está constantemente em posição ardente, num estado de sofrimento e de pouco fôlego. Ele de fato não aprendeu a amar.
Eu faço poesia quando dói, e dói quando algo está quebrado, incerto, inseguro. O poeta abre a ferida quantas vezes for necessário, sua insensatez em estado permanente.
Quando se ama, você quer cicatrizar, não quer sentir dor. E quando dizem que amar é sofrer, não é o amor que machuca e sim a nossa tentativa de controlá-lo.
O poeta venera o amor mas sabe que jamais poderá alcançá-lo, pois, no momento em que tiver sua conquista, a paz o silenciará. E quando a dor de não ter voz quebrar o silêncio as lágrimas serão as únicas palavras do poeta aposentado.


