Diário de uma escritora

Uma brasileira visita a British Library

Em julho eu fiz uma viagem rápida para Londres pra ver um dos meus mentalistas favoritos: Derren Brown. O cara praticamente nunca sai da Inglaterra, então tive que aproveitar essa oportunidade. Garanti meu bilhete com tanta antecedência (outubro do ano passado) que parecia que eu estava comprando ingresso pra ver o novo Avengers. Pra não ser só um fim de semana tirei quinta e sexta-feira de férias e risquei algumas coisas do bucket list: musicais do Moulin Rouge e Mormom. Que experiência!

Embora eu já tenha ido a Londres algumas vezes, só visitei a British Library uma vez, em 2015. Na época, vi exposições de Lewis Carroll com rascunhos e manuscritos originais da obra Alice no País das Maravilhas e fiquei maravilhada pensando em todas as possibilidades que eu viria a ter, se fosse a mais exposições como essas. Não tive oportunidade de visitar a biblioteca das outras vezes que fui pra UK, mas dessa vez encaixei duas horas para passear pelos corredores. E foi então que me deparei com esta exposição:

Dependendo da exposição, admito que fico com preguiça. Preguiça de ler tudo, de ver tudo, acompanhar tudo, andar por tudo. Tudo é muito. E cá pra nós, é impossível absorver tudo. E é por isso que dizem que o ideal, quando se vai a qualquer museu ou exposição de arte, é olhar em volta, trancar o olhar naquelas que te chamam muito atenção, porque há sempre um motivo pra isso, se aproximar e absorver tudo o que houver pra absorver daquela arte específica. Esquece o resto. Não vai conseguir ver tudo, anyway, muitas vezes a gente nem tem tempo de visitar todos os cantos de um museu.

Mesmo no caso dessa exposição da biblioteca, que é pequena, e você consegue ver tudo em menos de 1 ou 2 horas, eu diria pra se concentrar naquilo que chama atenção, algo que talvez tenha alguma ligação emocional ou apenas curiosidade histórica. E foi o que fiz.

Estas foram as minhas paradas mais longas, que resolvi me concentrar no que estava vendo e lendo:

Esse livro é o chamado “Bad Quarto” de Hamlet, impresso em Londres em 1603, a primeira edição impressa conhecida da peça. A gente conhece a famosa frase: “To be, or not to be, that is the question” e aqui está escrito: “To be, or not to be, I there’s the point.”

O apelido Bad Quarto vem do fato de o texto ser muito mais curto e bastante diferente das versões posteriores de Hamlet. Durante muito tempo, uma das principais hipóteses foi que ele teria sido reconstruído de memória… possivelmente por alguém ligado a uma montagem da peça. Há muitos debates acadêmicos sobre o que exatamente originou essas diferenças e não apenas nesse livro mas na obra de Shakespeare. Existe, afinal, a teoria de que Shakespeare não escreveu tudo o que conhecemos.

O único manuscrito medieval sobrevivente que contém o poema de Beowulf completo, hoje catalogado na British Library como Cotton MS Vitellius A XV. O poema em si é provavelmente bem mais antigo que o manuscrito. Não sabemos quem o compôs nem exatamente quando; a datação é debatida, mas a história circulou durante séculos antes de esse exemplar ser copiado.

Em 1731, houve um incêndio na Ashburnham House, onde ficava a coleção Cotton. O códice foi gravemente danificado pelo fogo. As bordas ficaram carbonizadas e, nas décadas seguintes, partes delas começaram literalmente a esfarelar, e o livro perdeu algumas letras. No século XIX, as páginas foram montadas individualmente em folhas maiores para tentar impedir novas perdas. E aí galera é a parte que meu emocional fala mais alto nessas exposições… nós conhecemos uma das obras fundamentais da literatura inglesa porque esse objeto específico conseguiu sobreviver por aproximadamente um milênio. Não temos outro manuscrito medieval de Beowulf ao qual recorrer. Se esse códice tivesse desaparecido no incêndio de 1731, muito provavelmente Beowulf não existiria para nós hoje. E pensar que Beowulf é uma das grandes inspirações de Tolkien… isso me faz refletir MUITO.

O manuscrito da foto é “Opinions of Mansfield Park”, de 1814–1815, escrito pela própria Jane Austen. Depois da publicação de Mansfield Park em 1814, ela foi anotando o que familiares e amigos achavam do romance. Infelizmente, Austen não deixou diários íntimos extensos e aparentemente suas cartas foram queimadas ou perdidas, então documentos assim são preciosíssimos para que a gente descubra alguma coisa sobre a personalidade da autora. E os óculos <3. Diz que esse par de armação tipo tartaruga pode ter sido usado por Jane Austen, especialmente para tarefas de perto, como ler e bordar. Eles ficaram preservados durante gerações, juntamente com outros dois pares, dentro da escrivaninha portátil de Austen. A caixinha ao lado é o estojo dos óculos.

Yep. Um manuscrito de trabalho, de 1923–24, de Virginia Woolf, para o romance Mrs. Dalloway, que seria publicado em 1925. Woolf estava ali escolhendo, cortando, mudando de ideia e reescrevendo. Gente como a gente. 😉

Isso é uma impressão xilográfica do Avalokitesvara Sutra, encontrada em Dunhuang, na China, e datada dos séculos IX–X. Ou seja: estamos falando de impressão em larga escala centenas de anos antes de Gutenberg.

A técnica é a xilogravura: o texto inteiro de uma página era entalhado em relevo numa placa de madeira, passava-se tinta sobre ela e pressionava-se o papel. Isso permitia produzir muitas cópias do mesmo texto, e foi especialmente importante para a disseminação de textos budistas na China.

O texto é budista e trata de Avalokitesvara, o bodhisattva da compaixão. Segundo a própria legenda, é um capítulo conhecido do Sutra do Lótus e descreve como Avalokitesvara socorre seres que estão sofrendo. O Sutra do Lótus é um dos textos fundamentais do budismo Mahayana.

Esse material estava associado às famosas Mogao Caves, um complexo de templos e cavernas budistas numa rota importantíssima da antiga Rota da Seda. Ali foi descoberta no início do século XX a chamada Library Cave, uma câmara que havia permanecido selada durante séculos contendo dezenas de milhares de manuscritos, pinturas e documentos.

O exemplar é News from Nowhere, de 1892, escrito pelo próprio Morris e produzido pela Kelmscott Press, que ele fundou em Hammersmith em 1891. Morris era escritor, designer, artesão e socialista, e estava profundamente incomodado com o que a industrialização estava fazendo com a produção: objetos mais baratos e abundantes, sim, mas, para ele, frequentemente piores e feitos em condições de trabalho desumanas. Então ele resolveu caprichar e fazer livros bem feitos. 😛 Será que a gente pode dizer que devemos a ele nós edições lindas com spray edges de hoje em dia? (hihi)

Isso é o Codex Sinaiticus! Ele foi produzido aproximadamente em meados do século IV, por volta de 330–360 d.C., provavelmente no Mediterrâneo oriental. É um dos mais antigos manuscritos sobreviventes da Bíblia cristã e contém a mais antiga cópia completa do Novo Testamento que chegou até nós. O material é pergaminho, produzido a partir de peles de animais, e o texto foi escrito à mão em grego. Cara, isso tem mais de 1600 anos…

Voilà! Magna Carta de 1215; original, galera! É um dos apenas quatro exemplares originais sobreviventes da Magna Carta emitida naquele ano. A própria legenda identifica este como Cotton Augustus II 106.

Ela foi emitida em 15 de junho de 1215, em Runnymede, depois do confronto entre o rei John, Rei da Inglaterra, e um grupo de barões rebeldes. E vale acrescentar que não era originalmente uma declaração de democracia, igualdade ou direitos humanos universais. Era mais um acordo político destinado a limitar determinados abusos do poder real e resolver uma crise entre o rei e barões.

São mais de 3.500 palavras em latim, distribuídas em 63 cláusulas não numeradas, todas escritas à mão numa única folha de pergaminho de pele de carneiro.

Isso é um dos cadernos de esboços de Ludwig van Beethoven para a Sinfonia nº 6 em Fá maior, Op. 68 — a Pastoral, de 1808. A página exposta contém ideias melódicas para o primeiro movimento; olhem a segunda página, hahaha, que caos! Riscos em cima de compassos, fragmentos interrompidos, coisas escritas por cima, anotações apertadas onde ainda cabia alguma coisa. Super me identifiquei. Processo criativo, galera! Só quem passa por isso sabe que o resultado é só a ponta do iceberg! Pra quem não sabe qual é a música Pastoral é aquela que toca numa das melhores partes do filme Fantasia, da Disney, no Olimpo, com os centauros e pégasus e faunos… essa música é genial e o maluco já estava quase totalmente surdo nessa época, imagina!

Esse documento faz parte do Arundel Codex (Arundel MS 263), uma enorme coleção de folhas e cadernos de Leonardo da Vinci hoje preservada pela British Library. Nessa época Leonardo já havia deixado a Itália e vivia na França, sob a proteção do rei Francisco I. O rei lhe propôs um projeto gigantesco em Romorantin, no centro da França: conceber algo próximo de uma cidade ideal e residência real.

As páginas mostram estudos para um enorme complexo palaciano, organização urbana e, principalmente, um sistema de canais navegáveis, incluindo mecanismos inovadores de eclusas/elevadores de água. Leonardo pensava simultaneamente em arquitetura, circulação, água, engenharia e funcionamento da cidade. E estamos falando aqui de 1517-1518. Leonardo morreu em 1519!

First Folio de Shakespeare, de 1623. Pra fechar o círculo da exposição!

Título: Mr. William Shakespeares Comedies, Histories, & Tragedies. Foi publicado sete anos depois da morte de Shakespeare, reunindo 36 peças. O projeto foi organizado sobretudo por John Heminges e Henry Condell, atores e antigos colegas de Shakespeare na companhia King’s Men.

18 das 36 peças nunca tinham sido impressas antes. Não existe nenhum manuscrito autoral sobrevivente dessas peças. Portanto, sem o First Folio, provavelmente teríamos perdido obras inteiras. O que ajuda a criar muitas das teorias que temos hoje de que Shakespeaker não escreveu todas elas.

Na página da direita há o retrato de Shakespeare gravado por Martin Droeshout, que é um dos mais famosos, talvez o que chegue mais perto de representar sua aparência de verdade. E na esquerda tem o poema de Ben Jonson, To the Reader, comentando justamente o retrato.

“Reader, looke / Not on his Picture, but his Booke.”

Leitor, não olhe para o retrato dele. Olhe para o livro.

<3

Esse praticamente foi o livro que nos ajudou a “criar” a ideia que se tem hoje de Shakespeare.

E essa última frase do poema me faz refletir em tanta coisa… “esquece a cara do maluco, lê o homem!”

Escritores, compositores, artistas… todos passam por um processo criativo e há pilhas e pilhas de rascunhos e anotações e discussões internas, que nem sempre vamos entender nem sequer ter acesso. Mas ver esse tipo de documento original, ao vivo e a cores, me dá um quentinho no peito. Me traz paciência e resiliência porque reforça uma verdade muito simples e óbvia, mas que às vezes a gente esquece: nenhuma obra finalizada; e, portanto, nenhum sucesso, vem com a legenda de todo o trabalho, esforço, tentativa e erro que existiram para que ela chegasse até ali. A gente vê a obra pronta e só; as canetadas que damos ao longo da criação ficam sempre escondidas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *