Diário de uma escritora

Caixão Aberto

A única vez na vida que liguei e paguei pelo wifi numa viagem de avião foi num voo de 9h Lisboa-Rio de Janeiro, depois de saber que minha mãe, a pessoa que mais me amava nesse mundo, havia morrido há apenas algumas horas, num quarto de hospital.

Recebi a ligação do médico na fila de espera do portão de embarque. Antes de entrar no avião, liguei pro meu melhor amigo e pedi que ele fosse pro hospital cuidar do meu irmão, que eu sabia que estaria sozinho e não ia ter como falar comigo. Liguei o Wi-Fi para acompanhar o que tivesse que acompanhar.

Aquelas primeiras burocracias acontecem rápido, o hospital, afinal, precisa se livrar do corpo, liberar o quarto, há outros doentes para entrar, alguém já deu cabo de um dos fios das fiandeiras, tendo você se despedido ou não do tal corpo.

Enquanto de um lado meu amigo me contava o que estava acontecendo no hospital, me perguntava detalhes de como eu queria as coisas para falar com meu irmão, se tudo bem a funerária que foi escolhida, se a roupa precisava ser escolhida por mim, se me opunha a isso ou aquilo, eu, do outro, dentro de um avião, respondia pergunta a pergunta, tentando manter a calma, sentada ao lado de uma estranha, que embora tenha me oferecido condolências, ainda assim, era apenas uma humana num oceano de 8 bilhões.

Caixão aberto, eu me vi respondendo a mensagem de whatsapp. Nunca achei que fosse querer expor minha mãe em seu funeral assim, nem que eu fizesse questão de exibir um corpo morto às pessoas, que certamente não tinham acordado naquele dia com um desejo enorme de passar por tal experiência numa sexta-feira de sol. Eu precisava ver minha mãe, em carne e osso, mesmo que não estivesse mais viva. Já não a via há dois anos, a não ser através de uma tela mísera de celular, viva ou não, eu ansiava pelo seu contato.

Muitas horas depois, eu a vi no caixão aberto: seu corpo tão pequeno e magro, parecia uma criança. Seu corpo estava todo coberto de flores brancas e rosa, quatro maiores rosadas distribuídas na vertical do pescoço aos seus pés, apenas seu rosto estava aparecendo, coberto por uma rede transparente. Eu dei um beijo em sua testa, apoiei a mão em seu rosto, disse poucas coisas, mas o que achava que precisava dizer, chorei e perdi o ar, respirei, terminei a tentativa de despedida com um eu te amo sussurrado e dei um segundo beijo em sua testa, o último que eu daria em toda a minha vida.

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