Ouvir mais o silêncio e menos o barulho
“Ouvir mais o silêncio e menos o barulho” foi o que eu disse pra minha terapeuta semana passada.
No início do ano achei que eu já tivesse aprendido alguma coisa com o luto da minha mãe, achei que eu tivesse imune às questões pequenas que nos incomodam no dia a dia, de tragédias mesquinhas e egos alheios. Eu sucumbi ao caos. Foquei no barulho. Ocupei minha mente com vozes daqueles que não estão habilitados a amar nem empatizar. Memorizei o evangelho do rancor e fiz de mim mesma uma cobaia de armadilhas do abuso psicológico alheio.
Não culpo a vulnerabilidade nem as circunstâncias por ter vivido o que eu vivi. Foram úteis na minha transformação durante o luto e têm sido minhas aliadas nessa tentativa constante de enxergar melhor o mundo e a mim mesma; têm sido minhas aliadas na minha busca eterna para entender meus limites e transparecê-los ao mundo. Nem sempre acerto o tom, nem sempre sou afinada nesse canto dos salmos contemporâneos.
Descobri nos últimos meses que, ao desafiar as competências alheias, desencadeio um processo de produção da proteína da ira no corpo daqueles que, por falta de humildade ou não, evitam olhar para o espelho. Eu me deixei ser invadida pela projeção do medo do outro. Além das minhas inseguranças, com tanto luto em tão pouco tempo, convidei a entrar os sentimentos negativos do mundo.
O barulho foi a minha companhia.
Até que, distraída por um sorriso, por uma leveza que custamos a dar o devido valor, olhei para o silêncio e respirei fundo. Havia tanto de mim na quietude. O silêncio que preenche um espaço é rico e valioso. Eu me vi espantada por não tê-lo ouvido antes, tão forte e avassaladora que é sua presença.
Nós nos deixamos levar pelo barulho de uma minoria, pelo xingar e pela atitude pequena e egoísta daqueles que não nos querem bem. Quão mais saudável e simples seria olhar para além do barulho, para quem nos percebe e nos valoriza.
“Um dia de cada vez” se tornou o carpe diem do millennial; nós matamos um leão por dia e seguimos em frente. Se juntamos todos os leões ao mesmo tempo, somos engolidos. Um por dia, um de cada vez, aí sim, temos destreza suficiente. Uns fogem, se escondem, outros arregaçam as mangas, mas desde que a gente separe o grupo de problemas e os encare um por um é possível.
E foi o silêncio que encontrei nessa possibilidade. A nossa capacidade de meditar através da quietude e do barulho e encontrar certa sabedoria em não colocar peso naquilo e naqueles que não merecem o espaço.


