Diário de uma escritora

Sobrevivi… mas agora eu quero viver.

Assim que voltei do Brasil pra Portugal, ano passado, em meados de março, há um ano, eu fiz uma analogia pra minha psicóloga sobre estar vivendo um inverno durante a primavera. Curioso é que, por mais que a gente pense no luto como algo infinito e eu saiba que vou conviver com ele pelo resto da minha vida, ainda assim, eu estipulei que naquele momento eu vivia um inverno duro, frio, chuvoso e triste, e em nada me conectava naquele momento com a ideia de florescimento e renascimento.

Um ano depois, eu ainda sinto o luto tomar conta de mim e ainda quebro em mil pedaços, como aconteceu ontem, escrevendo o episódio de podcast de domingo. No entanto, eu já não me sinto mais no inverno. O tempo passou e eu aprendi tanto. E pensar que um dos maiores aprendizados foi que a sensação de estar perdida e de não ter mais o norte que eu tinha, que encontrava na voz da minha mãe, jamais será eliminada. Ainda assim, estou finalmente pronta pra entrar na primavera.

Dia 1 de abril completo 3 anos em Portugal. São 3x todas as estações. E aqui se sente cada estação, diferente do Rio. As manhã de primavera são bem frescas, as tardes quentes e, durante as noites, o frio volta. Começam os dias de esplanadas, conversas na varanda do trabalho, almoços do lado de fora, pegando um pouco de sol no rosto, e os dias bem mais longos. São 20h30 e ainda não anoiteceu.

Ao mesmo tempo que sinto conhecer Lisboa, e ter uma grande admiração por este lugar, às vezes, ainda me sinto um tanto perdida ao andar pelas ruas do centro. Eu moro afastada e vou pouco para os bairros mais conhecidos pelos turistas. Chiado, Alcântara, Bairro Alto… imagino que os turistas conheçam cada centímetro de cada rua, enquanto eu ainda nem sei diferenciar um bairro do outro. Isso me faz pensar no quanto eu tenho saído pouco de casa, no quanto eu tenho focado no trabalho e no pouco que tenho escolhido viver. E a impressão que fica é que tenho me permitido viver um inverno há mais tempo do que deveria.

Se eu escolhi sair do Brasil porque não via mais lugar para mim lá, se escolhi vir pra cá para desfrutar de uma cidade mais segura, em que eu pudesse caminhar mais, explorar mais, então por que ainda fico tanto em casa, trabalho-casa, casa-trabalho, como se ainda estivesse vivendo num apartamento em São Paulo, isolada de todos, durante uma pandemia?

Mas tô sendo injusta comigo mesma, como sempre. Não é como se eu não tivesse passeado por aqui, por Portugal, conhecido outras cidades, viajado pela Europa. No entanto, não consigo me convencer de que conheço bem o centro de Lisboa, que é o que todos que vêm visitar mais conhecem.

A gente pensa que vai viver como turista para sempre, numa cidade nova, quando somos imigrantes novatos. Quando cheguei aqui, fiz vários passeios e lembro de ter pensado: vou conhecer algo novo todo fim de semana. E aí o tempo passa, o trabalho aperta, o valor que eu dou para coisas que não devia ganha ainda mais peso e tudo que consigo pensar agora num sábado ou num domingo, depois de lavar roupa e voltar da yoga, é ‘quero descansar, ver um filme e relaxar a cabeça’. Não há uma semana que eu não pense sobre essa realidade, se isso é vida ou sobrevivência, e me questiono se não estou vivendo errado.

Quando a primavera chega aqui, ou melhor, quando é o momento de subir as roupas de frio e descer as do verão, parece até que a gente acorda de uma hibernação esquisita. Até o humor das pessoas na Europa muda, de acordo com a estação. Na primavera elas sorriem um pouco mais, ainda muito menos que o brasileiro, claro, e nem parece que se lembram de todas as vezes que fecharam a cara e foram pessoas cruéis com você há tão pouco tempo, durante um inverno difícil.

Dizem que a cultura é muito parecida entre brasileiros e portugueses, mas a verdade é que quanto mais tempo eu passo aqui mais eu percebo o quanto somos diferentes. E digo isso no bom sentido. Pelo menos, da minha parte, acho que só temos a agregar na vida dos outros quando temos coisas diferentes para ensinar e aprender. Há muitos desafios, é claro, nos choques culturais, coisas que eu nunca vou entender, mas preciso respeitar, ainda que não haja sempre o mesmo respeito de volta, mas no geral ser estrangeira numa terra nova antiga ainda é uma das experiências mais ricas e incríveis de toda a minha vida.

Eu não sei o que o amanhã me reserva, mas sei que, apesar de momentos muito difíceis, a minha bússola continua com o ponteiro virado para Lisboa. Se isso vai mudar um dia, eu não faço ideia, mas sinto que três anos ainda é muito pouco para eu conhecer tudo que há para absorver desse lugar.

Quero acreditar que a primavera vai começar, finalmente, depois de um longo inverno. Quase como se eu estivesse chegando agora em Portugal. O passado não mais existe, vamos passar a limpo e viver a partir de agora tudo o que há pra viver. Deixar a preguiça dos dias chuvosos para trás e abraçar a energia de um tempo renascido.

Entrar nos 40 anos, dia 4 de abril, sentindo esperança, de uma nova era, uma nova etapa, uma nova fase, é o melhor presente que eu podia ter recebido, depois de tanta mágoa. Sobrevivi… mas agora eu quero viver.

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