A Ponte Vecchio
A primeira coisa que vi em Florença foi a Ponte Vecchio. Posso ter visto um pouco antes algumas ruas e a estação de trem e o aeroporto e alguma coisa ou outra da vista no caminho de lá até o centro, mas para fins de narrativa, peço aqui a licença criativa, a ponte Vecchio foi meu primeiro marco. E eu tava fazendo vídeo pro meu melhor amigo, no exato momento em que virei a rua e vi o rio e a ponte, ao fundo. Mostrei pra ele no vídeo o que minha mente também absorvia, ao mesmo tempo, e senti os olhos encherem d’água.
A ponte não é, em si, a mais bela das belas. É uma ponte pra lá de interessante, com lojas (de marca) e construções no meio dela, é muito diferente de tudo o que eu já tinha visto, mas o fato de ser praticamente uma rua normal, ao atravessá-la, já que só no meio, e num pequeno pedaço, você consegue ver a água, eu não consigo categorizá-la como uma ponte bonita. Mas, sem dúvida alguma, é grandiosa e uma ponte não precisa ser bonita pra ser especial.
Já é um dos elementos mais importantes de Florença pra mim, por esse motivo especial que ficou marcado no meu coração. E o duomo, por outros motivos, quer dizer, também ficou marcado no meu coração, mas não porque eu o via pela primeira vez com meu melhor amigo via telefone, mas porque eu lembrei de quando jogava, muito de vez em quando, Assassin’s Creed, e pensei “um dia, vou visitar a Itália e ver esses domos com meus próprios olhos”; e lá estava eu, comemorando meus 40 anos, em Florença, um minúsculo ser, parado no meio da rua, olhando pra cima, com a boca semiaberta, mal podendo acreditar naquela construção bestial e magnífica.
Eu chorei algumas vezes nessa cidade. Eu percebi que choro mais quando viajo sozinha. Mas, curiosamente, as lágrimas do duomo tinham a ver com o passado e com a conquista de algo idealizado; já as da Ponte Vecchio tinha a ver justamente por eu não estar sozinha e ter experimentado essa primeira experiência turística de Florença com o meu melhor amigo. Lágrimas e emoções podem ser tão confusas e paradoxais, né?
Por incrível que pareça, e por conta também do meu tempo e do horário marcado com o tour gastronômico que fiz na sexta-feira, dia que cheguei lá, embora a Ponte tenha sido a primeira coisa que vi, eu não atravessei de imediato. Só no fim do dia, e depois de já ter visitado dezenas de coisas marcadas no meu google maps com a bandeirinha verde de ‘Quero Visitar’, foi que o guia nos levou para o outro lado do rio para jantar bisteca florentina e saborear um gelado de sobremesa.
Fui e voltei várias vezes dessa e de outras pontes ao longo de 3 dias em Florença. Visitei a catedral e o museu da igreja, vi David e as artes da Galeria degli Ufizzi, fui no palácio Pitti e no jardim de Boboli, subi os degraus da torre e do duomo; comi pasta, risotto e gelados, bebi vinho e comemorei meu aniversário do jeito que eu queria, com estilo e fazendo exatamente o que gosto.
O charme de Florença é mesmo avassalador e magnético. Eu até queria ter conhecido mais dos arredores e não apenas a área central de um lado e de outro da ponte, mas eram só três dias e, de fato, a área ali da catedral, das praças e do duomo atraem os turistas como a luz aprisiona as mariposas. É impossível se afastar com tanta coisa acontecendo. Eu poderia ficar três meses, hospedada exatamente onde estava, no coração de Florença, na margem do rio entre as pontes Vecchio e Santa Trinita, e ainda assim não conseguiria conhecer tudo o que o centro pode nos oferecer.
Por coincidência, ou não, no meu último dia, no domingo de Páscoa, uma das últimas coisas que fiz antes de passar no hotel para buscar minha mochila, foi atravessar a Ponte Vecchio. Era depois do almoço, eu tinha acabado de comer ravioli, acompanhado de um vinho maravilhoso, e gelado de sobremesa, é claro; estava caminhando um pouco para fazer a digestão, antes de ir para o aeroporto, e pensei no no meu melhor amigo, naquele primeiro momento, ao chegar nessa cidade, no meu sorriso e na minha felicidade de estar viajando, que é a coisa que eu mais amo nesse mundo. Pensei no tempo decorrido da viagem e como ele se transforma num instante, quando tudo acaba. No entanto, o que fica é a experiência e as lembranças e os momentos, e faz mesmo toda a diferença quando dividimos esses instantes com alguém, mesmo que esse alguém esteja do outro lado do mundo, e acompanhando através de um telefone.
Agora é fechar os olhos e viver as lembranças de um passado, que já não existe, sempre que der vontade.


