Diário de uma escritora

I Ching das águas de março

Não sei se vocês conhecem o I Ching. Eu mesma não sou nenhuma expert, a única coisa que eu sei é que tem que fazer uma pergunta e ver a resposta e interpretar através dos hexagramas. Um dos textos mais antigos da filosofia chinesa e usado há mais de três mil anos como um sistema de reflexão e consulta, a ideia-base, e que tem tudo a ver comigo, é que tudo na vida está em constante transformação. E, através de combinações de seis linhas, chamadas hexagramas (o livro tem 64 hexagramas ao todo), cada um representa um estado ou uma situação possível da realidade.

E cada símbolo vem acompanhado por interpretações que te ajudam a refletir sobre momentos de mudança, decisões e caminhos possíveis. Não é sobre prever o futuro nem te encaixar num horóscopo, o I Ching funciona como um espelho filosófico, é um convite pra gente observar a situação presente, tentar compreender as forças em jogo e refletir sobre como agir com mais consciência dentro do fluxo natural das transformações.

Eu fiz uma pergunta recentemente e tive de resposta os dois hexagramas abaixo:

A interpretação do primeiro tem a ver com Reforma, Sentenciar ou Aplicar a Pena. “Fala, essencialmente, da aplicação das leis e dos regulamentos, necessários para manter a ordem e proteger as diferentes partes da coletividade. Quando um obstáculo impede a união ou o desenvolvimento de uma iniciativa, o sucesso é alcançado com uma medida cortante. Se o problema se deve a alguém que trama intrigas e traições, é necessário intervir de forma drástica para evitar danos permanentes.” A ideia aqui é equilibrar firmeza com gentileza, prevenir como melhor remédio e agir com respeito.

E então temos o segundo hexagrama, de Desintegração. Não é favorável seguir em direção alguma, seja qual for. Eu gosto particularmente deste trecho da interpretação: “Devemos nos recolher na quietude, para consolar o coração e cultivar nossos dons para o período de renovação que chegará a seu tempo. Agora não é covardia, e sim sabedoria, aceitar a situação, evitando os gestos impulsivos de reação.” E este: “O melhor é continuar onde nos encontramos e aceitar a situação, tomando como modelo o homem nobre que contempla com isenção os períodos de seca e de cheia, a eterna sucessão dos opostos, tanto no espaço celeste quanto na terra.”

O que isso tem a ver com a pergunta diz respeito a mim e a mim only. E a minha leitura da interpretação é conduzida através de conexões que faço com similaridades ou coincidências, e o que ressona com a minha capacidade de aceitar um caminho A ou B. É incrível como ajuda-nos a refletir sobre os assuntos, sem precisar ditar regras ou se passar por certo ou errado.

E seja lá qual for a minha decisão, se é que a pergunta que fiz ao oráculo tenha qualquer coisa a ver com decisões, é importante que eu saiba que um livro escrito há milhares de anos não está interessado em ditar minha vida nem dizer o que eu preciso fazer. O texto apenas sugere, através de uma interpretação filosófica de questões pelas quais todos nós passamos, um pensamento para nos ajudar a organizar as dúvidas e retomar a consciência para o que realmente importa. É muito diferente de escolher um candidato para trabalhar numa empresa, porque ele é de Áries, com ascendente em Touro. E é por isso que eu adoro I Ching.

E, muito sinceramente, graças ao meu melhor amigo que me lembrou de fazer isso, perguntei ao oráculo num dia muito difícil e, ao refletir pesadamente sobre o que me incomoda, aprendi e enxerguei algumas coisas para as quais acho que ainda não estava preparada para olhar. Instantaneamente, eu me senti mais calma e tranquila.

Se alguém tiver lendo isso, e quiser tentar, tá aqui pra consultar I Ching. Muito melhor que qualquer AI.

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