Faltam 14 minutos
É estranho demais pensar no tempo e no passado como algo que já aconteceu, quando na nossa cabeça um acontecimento, um momento, se estende por muito mais tempo do que o segundo atrás que já não existe mais. Faltam 14 minutos pra minha mãe morrer. Ou faltavam quando comecei a escrever esse texto. Faltam 14 minutos pro coração dela parar de bater e ela deixar de existir; pro seu corpo ser deixado sem vida numa cama de hospital.
Há exato um ano, estava eu no carro com as amigas a caminho do aeroporto de Lisboa. Eu ainda tinha esperanças, ao me despedir dela antes do embarque, que ia poder visitá-la no hospital, no Rio de Janeiro. O médico não me ligou imediatamente, quando o bip da máquina se tornou estável. Ele esperou duas horas. Faltam 14 minutos para ela nos deixar, mas ainda falta muito para eu receber a notícia e desabar na sala de embarque do aeroporto.
Pensar em 1 ano ou até mesmo 365 dias é comprimir o tempo. As lembranças surgem breves e transformam-se num reels de 30 segundos. Mas pensar em momentos de cada dia desses 365 o paradoxo se cria e eu consigo estender a memória por muito mais tempo que até mesmo o próprio dia.
Eu penso na chegada ao Brasil e no velório, no meu irmão, nas pessoas que vieram me ver e me abraçaram, nas duas semanas que fiquei no Brasil esvaziando o armário da minha mãe e colocando suas roupas em caixas; descobrindo velhos diários de quando ela tinha 27 anos e falava de um romance e dúvidas sobre um futuro incerto.
Penso também na noite anterior quando tive que fazer a mala sem saber para quantos dias, porque não fazia ideia ainda quanto tempo minha mãe tinha de vida, sem saber se eu voltaria para Portugal, sem documento até para poder dar entrada outra vez. Eu não sabia nem se devia pensar numa roupa adequada para um possível velório, eu tinha acabado de receber a notícia do quão grave era a situação.
Faltam 2 minutos e eu ainda não estou preparada.
Nem que faltassem 60 mil anos eu estaria preparada.
Falta 1 minuto.
Eu já não falava com ela há dois dias, porque ela não conseguia acordar. Eu não lembro qual foi a última frase que eu disse a ela. Mas lembro de ter dito que a amava e lembro de ter dito “vai ficar tudo bem”.
O passado acontece em tempo real. O tempo todo. 365 dias são o mesmo que um segundo. Eu ainda a sinto aqui comigo, da mesma forma que ainda sinto que é neste exato segundo que ela deixa de existir nesse mundo e passa a existir apenas nas nossas memórias.
Eu te amo, mãe. Vai ficar tudo bem.






