Diário de uma escritora

Enquanto eu estiver viva

Soube recentemente que uma das grandes amigas da minha mãe faleceu no fim do ano passado, e que o seu marido — também ele um grande amigo da minha mãe — enfrenta um câncer em estágio avançadíssimo, vivendo agora os seus últimos meses. Conheci-os quando ainda era bebê. Os Natais passavam-se na casa da Tia Ana e do Tio Toninho; eram presenças constantes, estruturais, da minha infância. Era com Toninho que minha mãe cantava New York, New York em bares, num tempo menos avesso ao improviso. Cresci sob a convivência constante deles. No entanto, nos anos finais da Tia Ana, estive ausente. E essa ausência, ainda que não reclamada por ninguém, pesa um pouquinho.

Há dias, o meu melhor amigo disse-me uma frase de uma simplicidade surpreendente: enquanto eu estiver viva, minha mãe também estará. Somos nós que carregamos as lembranças e a história daqueles que já não estão aqui, não é mesmo? Essa ideia, aparentemente tão clara, conduziu-me a um pensamento dolorido: a Tia Ana levava consigo uma quantidade imensa de histórias partilhadas com a minha mãe… histórias que, com a sua morte, deixaram de existir. Não foram esquecidas; foram extintas.

Arrependimentos, penso eu, são uma forma estéril de ocupar o tempo, e não costumo trilhar esse caminho. Ainda assim, às vezes penso que gostaria de ter gravado, em áudio ou por escrito, as histórias de vida que minha mãe contava: histórias de viagens e encontros, de romances e desencontros, de dor e de saudade, de esperança e ingenuidade. Minha mãe era uma mulher bonita e profundamente vulnerável, e essa combinação dava às suas narrativas um brilho peculiar.

Ela viveu trinta e sete anos antes de eu surgir na sua vida. Tenho agora pouco mais de trinta e sete, e essa coincidência numérica me oferece uma perspectiva. Imagino quantas histórias ela acumulou ao longo de setenta e cinco anos; quantas delas jamais conhecerei, quantas pertenciam a um tempo partilhado com pessoas que talvez também já tenham desaparecido.

Sempre me atraíram as histórias que narram o momento inicial dos encontros, quando tudo ainda é uma página em branco e a conexão entre as pessoas ainda está sendo construída, lentamente, com cuidado e tempo. Não podemos lembrar do instante em que conhecemos nossos pais, do primeiro olhar, do primeiro sorriso. Não consigo acessar a memória do abraço da minha mãe quando eu ainda era um bebê. Essa imagem permanece fora do meu alcance, como tantas outras.

Por isso, se você conheceu minha mãe, faço-lhe um convite aqui: conte-me essa história. Ajude-me a mantê-la viva por mais um pouco de tempo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *