Diário de uma escritora

Ecos de um amor de mãe

Eu choro vendo alguns vídeos de gatinho, confesso. Ainda mais quando a produção é inteligente e apela para o emocional e insere frases como “o gatinho só queria fugir da chuva e encontrou comida, abrigo e amor”.

Choro também com vídeos de generosidade. O menino de rua limpando o vidro do carro parado no sinal, em troca de algumas moedas, até que a janela se abre, um garoto do lado de dentro oferece seu carrinho de brinquedo e o menino, atônito e incrédulo, ainda segurando o carrinho de brinquedo com uma mão, com a outra, pega um pacote de salgadinho e entrega ao garoto do carro. Não satisfeito em ter oferecido seu carrinho de brinquedo ao menino de rua, o garoto do carro abre o pacote de salgadinho que ganhou e estende para que o outro menino também possa comer.

Também choro com vídeos de demonstração de afeto e amor, pedidos de casamento ou casal fazendo as pazes… vídeos de superação e conquistas.

Às vezes eu me pego pensando por que nós sentimos o que sentimos quando vemos essas coisas de pessoas desconhecidas, estranhos numa telinha de celular. E no fundo eu sinto que tem muito a ver com nossos valores. Valores estes que foram construídos desde a infância, sob influência dos nossos pais. No meu caso, da minha mãe, porque não tive pai.

Se eu choro emocionada ao ver a generosidade das pessoas em cuidar de um gato de rua, que só queria fugir da chuva, mas encontra abrigo, comida e amor, é porque minha mãe me ensinou a ter compaixão, e o que eu vejo não é apenas o vídeo, mas todos os momentos enraizados do meu passado onde minha mãe me ensinou e mostrou o que era ter compaixão.

Se lágrimas caem ao ver vídeos de superação e conquistas, é porque dou valor à coragem e porque já testemunhei, através da minha mãe, a força necessária para seguir em frente, quando tudo parece perdido e impossível. Tive minha mãe como exemplo.

Sempre que choro com vídeos de demonstração de carinho e amor e de generosidade, é porque também vejo minha mãe se oferecer para levar uma desconhecida que caiu na rua para o hospital, de táxi, sendo que íamos pegar ônibus pra casa porque não podíamos gastar dinheiro. Vejo minha mãe se matando de trabalhar para pagar a escola e o lazer dos dois filhos, apenas por ser mãe, por amar e ser generosa, querer o bem dos filhos e não querer nada em troca.

Se eu me emociono quando vejo uma boa ação é porque minha mãe era cheia delas. Não só com os filhos, mas com todos. Era uma alma generosa.

Minha mãe seria a criança que ofereceria seu brinquedo ao menino de rua e sua comida; seria a pessoa que construiria um abrigo pro gato, daria comida e amor; seria a pessoa do vídeo que supera e vence um trauma e conquista uma medalha; seria a pessoa que abraça a outra, oferece afeto e muito amor; ela foi todas essas pessoas.

Não é à toa que dizem que mãe é Deus nos corações de todas as crianças. O amor de mãe nos transforma, nos ensina valores poderosos, nos deixa uma marca que nos impulsiona assim como nos protege.

Hoje faz seis meses que ela morreu. Seis meses que não ouço sua voz, seis meses que não a vejo; e muito mais tempo que não a abraço. Minha mãe era uma pessoa de abraços, era carinhosa, era de sorrir mesmo quando não havia motivo. Mesmo com depressão nos últimos anos, me ensinava valores e não desistia de dar o melhor pelos filhos.

Seis meses depois da sua morte, eu choro e lamento, porque o mundo perdeu uma alma muito bonita. Porém, também sorrio com essas memórias e com a certeza de que minha mãe ainda vive em mim, através de seus valores e graças a esse amor incondicional que ela me deu sem hesitar.

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