Diário de uma escritora

A falta que me faz ser filha

Sinto uma falta tremenda da minha mãe… e às vezes não é somente pelos motivos óbvios, às vezes é por puro egoísmo. Porque, mais do que ter uma mãe, eu ainda queria ser filha; queria poder ligar pra ela e chorar pelas coisas que me deixam aflita; queria ter sua atenção totalmente dedicada a mim enquanto eu lhe conto as novidades e partilho as vitórias e os tropeços. Queria ouvir que ela me ama mais que tudo nesse mundo e que, não importa o que eu decida fazer, sempre terei o seu apoio.

Sinto falta de ter uma âncora, de uma sabedoria maior, de um talismã mágico materno que nos tranquiliza na hora de dormir. Eu choraria e diria estar cansada, e ela encontraria as palavras para me fortalecer. Eu sorriria e diria estar feliz, e ela daria um jeito de me creditar pelo meu sucesso, isentando-se generosamente de tudo o que fez por mim para que eu chegasse até onde cheguei.

Sinto falta de um espaço seguro para falar de medos infantis; de monstros dentro do armário. De inseguranças prosaicas e covardias fúteis. De não precisar endurecer a voz nem maquiar o texto. De poder errar na vírgula e ter a liberdade semântica dos inocentes. De ter inocência.

A falta que me faz essa ilha… um lugar onde eu pudesse ancorar durante as tempestades e não precisar ser adulta o tempo todo. Poder me permitir ser criança por alguns minutos: fazer de conta, me enfiar debaixo de sua asa, deixar que a responsável abra a porta e resolva enquanto eu posso me esconder atrás dela ou ir pro quarto brincar com meus brinquedos.

Que saudade que eu tenho de ouvir sua voz e saber que, no fundo, eu não estou sozinha.

Com ela, eu ainda podia ser egoísta, querer tudo isso e ainda ser filha… e ela, minha mãe. Sem isso, sou só um barco à deriva, buscando eternamente pela luz guia de um farol que já não existe.

Já não tenho mais lacuna para ser criança. Já não há intermitências na vida adulta.

A falta que me faz ser filha.

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