Tentativas frustradas de escrever uma coluna #1

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marvin

Quando a coisa fica preta na hora de começar a escrever é porque a cerveja dos anos finalmente fez efeito. Babou. Os neurônios morreram. Troca de cérebro. Faz transplante das artérias carótidas. Sim, eu lembrei disso agora porque eu pensei em caos e aí me veio carótida à cabeça. Não me pergunte como, afinal, meus neurônios morreram por causa da cerveja, então não sei a resposta pra nada. A não ser 42. É a única resposta que eu sei na ponta da língua, assim, sem nem precisar raciocinar. Nerd é assim. Sabe o nome de todos os planetas de Star Wars e o nome de cada planta mencionada na trilogia de Senhor dos Anéis, mas não sabe nem a porcaria do nome dos planetas do próprio sistema solar, muito menos como começar o texto de uma coluna que deveria ser a coisa mais simples do mundo, mais ainda que a resposta para a vida, o universo e tudo mais.

Passemos ao segundo parágrafo…

Sabe o que é mais engraçado na hora de começar a escrever alguma coisa? É colocar desculpa em tudo. A culpa nunca é nossa! É o vizinho que não para de gritar com a filha, a bebê que tá chorando, o cheiro de comida que tá me distraindo, a cadeira que não é confortável, o telefone que tá apitando e tem gente fazendo periscope e você não pode simplesmente ignorar, precisa olhar pra ver quem está fazendo vídeos ao vivo… é uma peregrinação de procrastinação. A questão é que as palavras só aparecem na tela inacreditavelmente quando você as escreve. Juro! É tipo magia negra! Elas não estão na mente enquanto estão sendo escritas! Parece coisa de louco, mas é assim que funciona. “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.” Já dizia Antonio Machado, grande poeta espanhol, que eu não faço ideia de quem tenha sido, santa ignorância, mas como eu li esse trecho num prefácio de Ana Maria Machado, agora me considero uma pessoa culta, cheia dos entendimentos e das referências eruditas. Viu? Não é difícil jogar as palavras. O segredo da alma ou a alma do segredo (ou seria a alma do negócio?) é deixar as palavras fluírem no automático para que elas não sejam enfadonhas. Não há coisa PIOR que palavras enfadonhas. Ou frases engomadas com baba de riqueza e pó de arroz de cretinice. DEIXE ESTAR, já dizia a rainha Elza! Deixe estar. NÃO revise enquanto escreve; que pesadelo!

Chegou a hora do terceiro e último parágrafo! Dizem que o melhor conselho é aquele dado por último. Não sei onde ouvi esse ditado, talvez não seja nem um ditado. É possível que eu tenha inventado agora, ultimamente não tenho prestado muita atenção à consciência coletiva. Estou vivendo um momento “ego inflado da hipercorreção”, o que nada mais é que “tentar corrigir o que não está errado e fazer merda atrás de merda”. Veja bem, eu não estou me referindo à merdas clássicas, estou simplesmente atenuando o completo FUROR que tem se manifestado na minha mente nas últimas semanas. Dito isso, quero deixar claro que não estou louca, apenas tendo dificuldades de começar uma coluna.

Creio que não seria tão difícil se eu fosse direto ao ponto, mas meu cérebro, como já é sabido, está morto e incapaz de empoderar as questões pertinentes ao tema da coluna, portanto aguardarei o transplante das novas artérias carótidas que, num momento de crise do país, devem atrasar um bocado. Afinal, há muitos impostos e percalços pelo caminho…