Diário da Vivi

Resenha O Devorador, de Lorenza Ghinelli

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Caprichado

Acreditar em sonhos, viver uma fantasia e dar vida à ela são elementos frequentemente vistos como encorajadores. “Siga seu sonho”, “viva um conto de fadas”, “Acredite”. Bem, não em O Devorador, de Lorenza Ghinelli. No livro, os sonhos podem ser perigosos e se você der vida a eles pode vê-los se tornando reais; e, acredite quando eu digo, isso não seria nada bonito.

“Those who have seen your face draw back in fear
I am the mask you wear, it’s me they hear
Your spirit and my voice in one combined
The Phantom of the opera is there inside your mind”

Para quem viu, leu e/ou conhece a história do Fantasma da Ópera vai reconhecer as referências e entender melhor o enredo, o que a autora quer passar de mensagem para os leitores e o tema por trás da sinopse. Inclusive, a autora menciona Fantasma da Ópera quando um de seus personagens canta a letra da banda Iron Maiden. A música é diferente da ópera, mas tem o mesmo significado.

A trama envolve um menino chamado Pietro, de 14 anos, que é autista e tem talento para desenhar. Quatro meninos desapareceram misteriosamente na cidade e Pietro é a única testemunha. Por ter dificuldade de falar, ele desenha o que viu. Algo bastante perturbador. Alice, a educadora de Pietro, é a única a acreditar nele. Ela resolve ajudar a desvendar o mistério e descobrir quem é o Homem dos Sonhos e por que ele está matando os meninos, já que ninguém parece levar os desenhos de Pietro a sério. Em paralelo, conhecemos a história de Denny, de 7 anos, que morre de medo do pai violento, louco e alcoólatra. Seu único amigo? O Homem dos Sonhos.

O tema da solidão, isolamento, pais bêbados e violentos costumam existir para justificar a raiva e a quebra de espírito daquele personagem que normalmente é o responsável por alimentar o ódio. Em O Iluminado, Danny também fica isolado no hotel, sem amigos e sem companhia, e acaba fazendo um “amiguinho imaginário”. Denny, da autora italiana, não é diferente. O pai dele é violento, ele não tem amigos, sofre bullying na escola… o “amiguinho imaginário” dele é um personagem de um quadro que o pai pintou, mas tão perturbador (risos!) quanto o amiguinho imaginário do personagem de Stephen King.

Uma frase do livro que me chamou muita atenção foi: “as crianças não sabem que sonham”. Na verdade, a autora está falando sobre a base da fantasia. O ato de criar histórias. Quando a criança sonha, ela está vivendo uma experiência tão real quanto a de qualquer outro momento do dia. E acreditar nesses sonhos e dar vida a eles é o que alimenta o Homem dos Sonhos. Na trama, Lorenza faz menção ao escritor Gianni Rodari, que ganhou o prêmio Hans Christian Andersen, em 1970. O autor gostava de usar jogos como instrumento para estimular a imaginação e a criatividade, ou seja, a capacidade de criar histórias. E é justamente isso o que Denny, o garoto de 7 anos, tenta fazer para vencer os momentos de solidão. A curiosidade é que Rodari morreu no dia 14 de abril e a história do livro O Devorador começa no dia 15 de abril. Pode ser coincidência… ou não.

O livro tem outras referências que um leitor mais atento facilmente destacaria. A Alice, educadora de Pietro, por exemplo, tem pesadelos com coelhos e memórias envolvendo o animal de quando era criança. São essas lembranças que a fazem acreditar que já havia se deparado com o Homem dos Sonhos na infância. Para quem já viu Donnie Darko (2oo1), sabe que coelhos gigantes podem ser opressivos, assustadores e bastante convincentes em pesadelos. Além disso, o próprio nome Alice e a existência de um coelho na história, em que ela tem que desvendar a existência do mesmo, já remete ao clássico Alice nos País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Aliás, a base de tudo na história de Carroll é justamente a capacidade de Alice de acreditar em Wonderland. Da mesma forma que Denny é levado a crer que precisa “dar corda” ao seu amigo imaginário, o Homem dos Sonhos.

A diferença é que Wonderland tem maravilhas e metáforas que vão ajudar Alice a desvendar os mistérios da própria vida, além do sonho, e em O Devorador acreditar no velho de bengala só pode terminar em uma coisa: eufemismo.

2 thoughts on “Resenha O Devorador, de Lorenza Ghinelli

  1. Amei a resenha, me deixou curiosa em relação ao livro.
    Através da capa eu não conseguia imaginar exatamente do que se tratava. Pelo jeito é uma leitura mais intensa.

    Beijos 😉
    Livros e blablablá

    • É mais intensa mesmo. 😉
      Ela tem um estilo próprio… usando muita palavra única entre pontos, sabe? Quando a narrativa foca em um personagem mais problemático e tal. Bem bacana.
      Não tem nada a ver com o estilo do Stephen King, que é mais explicativo e detalhista, mas o suspense existe. Eu gostei.

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