Diário da Vivi

Palavra do dia: Detran

Share Button

– Estão prontas? – perguntou o instrutor da auto-escola para as três meninas assustadas, sentadas no cantinho da recepção. Eu era uma delas. Fiz que sim com a cabeça e, em seguida, fomos até o carro; um gol preto 1.0 2010. O carro da prova.

Até o Detran do Fundão levamos uns 40 minutos. Sem trânsito. Melhor para os nervos. Nós três já estávamos com o coração na garganta. Mas nem por um segundo parei de pensar tanto faz ser aprovada ou não, tenho tempo, terei outras chances. Não se preocupe. Faça o que puder.

O carro parou atrás de uma fila gigante, carros de inúmeras auto-escolas do RJ. Descemos e fomos até as cadeiras embaixo de um toldo branco. Os responsáveis pela prova estavam todos de colete azul, alguns de branco, e as pessoas faziam fila para colher as digitais. Obviamente pessoas tão esbranquiçadas pelo medo como a gente. Ficamos conversando para aliviar a tensão até a primeira de nós ser chamada.

Logo à frente das cadeiras tinha uma vaga de balizas e a fila continuava até o final do quarteirão. Ou seja, quem tava de fora olhando conseguia acompanhar as provas alheias pelo menos das duas primeiras vagas. Tenso isso, viu?! Você começa a ver o que o outro tá errando e te dá nervoso, vontade de gritar e ajudar o cara. Nada divertido.

A primeira menina reprovou. Era a segunda vez que ela fazia a prova e não conseguiu sair da baliza. :/ Muito triste. Bateu um desespero. Calma, Vivi. A segunda foi chamada. Demorou muito para ela voltar. Já era meio-dia, o sol tava forte, todo mundo com calor e o fígado na garganta. A outra menina voltou… passou! Perdeu 2 pontos só na conversão e conseguiu! Ai, que felicidade! É possível, então! =)

– Vai lá, sua vez – disse o meu instrutor.

Entrei na fila da digital, coloquei meu dedão direito, entreguei a minha identidade ao garotão de calça jeans, blusa branca e fone no ouvido – que não me deu boa-tarde quando eu falei. Vinte minutos depois fui chamada por uma mulher de ‘túnica’ azul. Era chegada a hora. Ela me entregou a identidade, que guardei imediatamente na bolsa, e me mandou ir para o carro.

Entreguei a bolsa para o meu instrutor e esperei. Daqui a pouco vem a mulher e grita:

– Pode entrar no carro, filha!

Entrei.

Os instrutores enfatizam na questão ‘banco, espelho e retrovisor’. Você precisa se ajeitar antes da prova mesmo que isso signifique colocar o espelho pro lado e devolvê-lo ao mesmo lugar. A galera só precisa ver que você mexeu, então esperei a mulher entrar no carro para começar. Quando ela entrou, perguntou se eu estava pronta. Respondi que eu ainda ia me ajeitar.

– Não, filha. Quando a gente diz para entrar no carro é para já ir se arrumando. Vai, se ajeita.

Me ajeitei.

– Liga o carro – disse a mulher, super grossa.

– Vou só colocar o cinto – respondi, colocando o cinto.

– Agora espera que a instrutora vem falar com você, ok? Presta atenção nela! – Outra vez aquela voz grossa. Isso tava começando a ficar chato.

Olhei para a instrutora que vinha em direção ao carro, segurando um cronômetro na mão. Ela chegou conversando com a outra mulher, a que tava sentada no banco carona, sobre um assunto nada a ver, olhou para mim apenas (não disse boa-tarde) e saiu. A mulher do banco carona olhou para mim como se dissesse tá esperando o quê, filha?, e de fato disse algo parecido logo em seguida.

– Já começou a contar o tempo? – perguntei perdida e incrédula por não terem me avisado. A mulher apenas olhou para mim.

Resolvi começar o mais rápido possível. Liguei a seta para a direita, marcha ré e freio de mão. Esperei a primeira baliza aparecer onde devia e parei com o carro. Virei tudo para a direita. Liguei a seta de novo. O carro começou a entrar na vaga. A mulher não falou nada. Vi as três balizas de trás e parei. Girei o volante para o lado contrário uma volta e meia a fim de ‘zerá-lo’ e deixei o carro entrar um pouquinho mais na vaga. Seta de novo e volante tudo para a esquerda. Entrei na vaga. Seta e volante para a direita, primeira marcha e vamos ajeitar o carro. Parei.

– Vem cá – disse a mulher que estava com o cronômetro do lado de fora. – Vai deixar esse carro assim torto desse jeito. Pode consertar! Eu, hein?

Nesse nível.

Volante para a direita, seta para a direita e vamos desentortar.

– Ah! Agora sim, né? Pode sair da vaga – disse a mulher carrasca.

Seta para a esquerda, marcha ré. Cheguei até o limite – com cuidado para não bater nas balizas -, depois primeira marcha, seta de novo e volante tudo para a esquerda. Olhei duas vezes para fora da janela (como mandam!) e saí com o carro até a primeira marca da baliza. Seta de novo, volante tudo para a direita e vamos deixar o carro reto. Depois girei uma volta e meia para o lado contrário e segui um pouco mais. Pronto. Baliza = check.

– Agora você espera a instrutora entrar no carro – disse a mulher do carona.

Eles não têm nomes. o.O Nem dão bom-dia, boa-tarde, que seja.

A mulher de fora, com roupa normal, sem a túnica azul, provavelmente general da horda de zumbis, entrou no carro. Mais uma vez falando de um assunto que – tenho certeza – ninguém estaria interessado.

– Aquela mulher ligou ontem, né? – começou ela para a carrasca número 1. – Eu disse que não era daquele jeito, que não dava, mas ela insistiu.

– Pode sair com o carro – interrompeu a Carrasca número 1.

Seta para a esquerda, retrovisor, cabeça para a fora e vamos nessa.

– Você não tá vendo aquele carro ali não? – disse a Carrasca número 2. – Aquele ali, logo atrás de você, vindo na sua direção.

– Sim, eu to vendo – respondi tentando manter a calma. – Ele está parado dando passagem. Acabei de ver no retrovisor.

– Acabou de ver no retrovisor? Você tem certeza? Porque ele só parou agora, antes você tava seguindo sem nem olhar para trás.

– Eu to olhando, to vendo que não tem ninguém vindo.

– Era só o que me faltava. Aquele caminhão não é ninguém.

Segui em frente, passei a segunda. Liguei a seta e fui para a pista da direita.

– Vocês me avisam onde tenho que virar? – perguntei desejando estar na minha cama longe desses ogros do inferno.

– É aquela ali à direita.

Quando cheguei perto da virada, pisei um pouco no freio e continuei. Elas continuavam falando besteiras para me estressar, coisa que – sinceramente – não lembro mais. Eram tantas as pinibas que, ainda bem, não registrei. A prova de trânsito era uma volta no quarteirão, 1km no máximo. Super rápida e simples. Elas faziam parecer a pior coisa do mundo. Enfim.

Cheguei na rotatória e elas começaram a gritar de novo. Só pisei um pouco no freio para fazer a curva e elas interpretaram como se eu tivesse parando numa rotatória. ÓBVIO que não, mas como o carro não parou completamente elas não puderam fazer nada. Só ficaram repetindo:

– Péssimo isso, hein?! A gente falou para seguir aquele carro branco e precisa dar essa volta ao mundo? Tão largo assim? Péssimo! Vou tirar ponto aqui da conversão. Nãaaaao! Onde já se viu isso? – A carrasca número 2, aquela lá do banco de trás, nasceu com uma cenoura no traseiro. Só pode ser.

Perdi 2 pontos na rotatória. Continuei como se nada tivesse acontecido.

Eu já tava na terceira marcha e não precisei diminuir. Última curva.

– Agora você para o carro ali atrás daquele vermelho, tá vendo? – Carrasca número 2 ataca novamente. Tinham dois carros vermelhos, um em cada fileira.

100 metros até a fileira de carros.

– Qual deles? – perguntei.

– Esse mesmo da sua via. Você sabe que vai estacionar né?

– Sim, calma, eu sei. – Aí liguei a seta para a esquerda.

– Calma? É para hoje, filha! “Calma”, é tanto o que eu tenho que ouvir aqui nesse treco. Onde já se viu? Vocês são todos assim! Que absurdo!

Parei o carro, ponto morto e freio de mão.

– Olha, vou te contar, viu, mas você foi aprovada. Pode sair do carro! – Carrasca número 2, você é a pessoa mais imbecil que eu já conheci em toda a minha vida.

Saí do carro tremendo. Meu instrutor tava logo ali com a minha bolsa, me abraçou e disse:

– Vai tomar uma água e avisa para aquela senhora lá, mãe de uma aluna, que você vai de carona com ela pra casa.

Tentei sorrir, mas o nervosismo me venceu. A vontade que eu tive era de chorar, de felicidade, de alívio, de raiva, não sei dizer. Mas achei melhor segurar…

Voltei ao garotão de fone de ouvido e peguei meu Renach carimbado. Só perdi 2 pontos naquela maldita rotatória. Pelo que soube… muita gente perdeu aqueles mesmos pontos. Em seguida, tomei uma água de coco e esperei a hora de voltar para casa.

Pimba na cara daquelas duas, viu?! Ô, gente que não tem mais o que fazer…

Nerd de plantão, fã de séries, cinéfila até a alma, meu sonho é publicar livros. Sonho não. Objetivo. Sonho é ver meus filhos lendo meus livros já publicados! Sou muito curiosa e de vez em quando tenho uns bloqueios do tipo; passar 20 min olhando o meu gato brincar. A propósito, eu sou a Vivi, signo de áries – para o inferno o novo quadro de datas (não posso ser aquário nem que me paguem!) -, adoro picanha e comida japonesa, nunca recuso um rodízio de pizza e uma maratona de Senhor dos Anéis, vivo Harry Potter há mais de uma década e nem de perto essas palavras fazem jus à nerdice que me acolhe.

5 thoughts on “Palavra do dia: Detran

  1. Te falar hein! Se fosse eu tinha reprovado fácil, não sei lidar muito bem com a pressão.
    Sorte que aqui é cidade pequena, todo mundo se conhece então rola aquela simpatia, quando eu tirei carta fiquei nervosa, mas todos foram fofos comigo 😉

    Beijos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Follow

Get every new post on this blog delivered to your Inbox.

Join other followers:

  • Facebook
  • Google+
  • LinkedIn
  • Twitter
  • Tumblr
  • YouTube
  • Pinterest