Diário da Vivi

Palavra do dia: Café com leite

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Uma senhora magra e miúda que levava consigo seus setenta e poucos anos entrou no café. Naquele dia resolvera colocar uma saia longa preta, sapatos confortáveis, blusa larga salmão, porque a outra blusa bordô que combinaria mais com o dia ensolarado estava na cesta para lavar.

Sentou-se na primeira cadeira ao lado da porta de entrada de vidro. A garçonete prontamente veio atendê-la.

– O que deseja?

A senhora não respondeu de imediato. Olhou para o lado de fora, para as pessoas na rua, desviou o olhar para a atendente logo à sua frente e desatou a conversar. Ela falava tão baixo, com uma voz tão frágil, que era impossível entender o que dizia. Depois de alguns minutos, finalmente pareceu fazer o seu pedido. Em uma das frases a palavra café se destacou, depois queijo e por último leite e água. Nesta ordem.

A atendente então resumindo o pedido e tentando se decidir se havia compreendido tudo, repetiu:

– Café com leite, 2 pães de queijo e uma água sem gás?

A senhora assentiu com um sorrisinho fofo no rosto.

Quando o pedido dela chegou e foi organizado na mesa deu uma mordida primeiro no pão de queijo. Estava crocante e seco, do jeito que ela gostava. Arriscou um gole do café com leite sem antes verificar se estava quente ao ponto de queimar a língua. Deu sorte. Estava na medida certa. Em seguida, tomou um gole da água.

Então, ele chegou. Um rapaz carregando seus quarenta e poucos anos, uma camiseta regata, bermuda, chinelos Rider e poucos fios de cabelo na careca.

A senhora se levantou para cumprimentá-lo, os dois se abraçaram de leve, beijaram-se na face e, em seguida, se acomodaram na mesa ao lado da entrada da porta de vidro. O homem não esperou a atendente. Pediu em voz alta para a funcionária que estava atrás do balcão:

– Um espresso, por favor!

A voz do homem era firme e pesada, grave, mas não atingia volumes desnecessários. Ninguém no café parecia perceber a conversa que o homem articulava com a senhora e tão pouco lhe importava. A senhora só ouvia e de vez em quando olhava para a mesa do café com leite e pão de queijo, porque era justamente disso a que ele se referia.

– A senhora não se cuida! A senhora não faz dieta! A senhora não faz exercício físico, não quer saber dos exames, não se cuida! É teimosa e não escuta!

E ela parecia sem reação. Não tocou mais no café com leite – que só havia tomado dois goles – e o segundo pão de queijo esfriava no prato à sua frente. Não sorria mais com jeito fofo.

– Eu… eu to fazendo… exercício – arriscou ela quase sussurrando. – Estou caminhando…

– Não, a senhora não está – interrompeu o homem. – Não está se cuidando não. A gente fala e fala e fala e a senhora não escuta. É sempre assim! Não adianta fala nada pra senhora.

O jeito que ele falava era rude e continuou assim por muito tempo. Quem sabe o que o passado daquela senhora condenava? Quais besteiras ela já havia aprontado com o rapaz para que ele não tivesse mais paciência. O que antes dizia com paixão que hoje, com idade avançada, já não tinha mais forças para dizer? E o que tinha de ouvir dos outros que já estava cansada de ouvir?

Um casal entrou no café; pai e filha, e interrompeu a conversa calorosa do homem careca. Eles se conheciam há anos e os abraços foram apertados. A senhora deixando-os conversando do lado de fora do café foi pagar a conta no balcão. E sem tomar o café com leite que havia pedido e sem comer o segundo pãozinho de queijo, foi embora.

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