Crítica Na Estrada (On The Road)

Share Button

Caprichado

Cinema e literatura são duas propostas completamente distintas. Não dá para ver uma adaptação com o pensamento infantil de que tudo o que foi lido será apresentado nas telonas (e que bom que isso não acontece! A graça é esperar pelo diferente, pela linguagem própria e pela mensagem por cima da mensagem que os diretores geralmente colocam em adaptações). Dito isso, a adaptação do clássico livro de Jack Kerouac, Na Estrada (On The Road, 2012), de Walter Salles, consegue traduzir, ao pé da letra, a geração beat, a juventude anti-conformista e a paixão pela loucura de viver à flor da pele – talvez até de um jeito mais romântico que Kerouac, que usa uma linguagem mais seca. Apesar disso, a mensagem principal é tão explorada pelo diretor que cansa, um pouco, os espectadores mais perspicazes. Na literatura, isso funciona perfeitamente. No cinema, nem tanto.

Conhecendo ou não o livro que marcou uma geração ‘calada’ e ‘aprisionada pelo moralismo’, o discurso do filme é tão parecido que qualquer espectador consegue se colocar no lugar dos jovens idealistas e selvagens como eram vistos nos anos 1940 e 50 nos E.U.A. De um lado, você tem uma sociedade puritana, intolerante com o ‘desconhecido’, e preconceituosa, muitas vezes hipócrita. De outro, jovens rebeldes que não têm medo de experimentar, viver e cair sem paraquedas.

Embora a visão anárquica e o estilo de vida romântico não fossem bem-vindos, a sociedade se deixou inspirar, e cada personagem que passa pela vida de Sal Paradise (Sam Riley), em sua viagem, deixa isso bem claro. Uma cena em que Marylou (Krirsten Stewart) conversa com duas mulheres: uma, completamente louca, e a outra, extremamente sã e convencional – que pouco sabe sobre a vida de drogas e sexo, pergunta como fazer para deixar o marido feliz -, comenta sobre o sexo oral. O que para Marylou e para a doida era uma coisa óbvia, para a mulher tradicional, não. E nem sempre por hipocrisia ou pela imagem que a mulher casada tinha que ter na sociedade, mas por pura inocência.

As atuações, regadas pelo estilo de improvisação de Salles, dão vida à história e à complicação do relacionamento entre os personagens. É visível o quanto cada um se dedicou ao projeto e deu sangue para torná-lo real. No entanto, os longos anos laboriosos que Salles se dedicou ao estudo e ao filme, e refez os passos de Sal, talvez tenham transparecido um pouco mais do que deviam, nas telonas. O filme é longo e cansativo, porém, inspirador como toda viagem deveria ser.

Às vezes, é só o jeito de contar uma história que acaba mudando tudo. Kerouac sabia bem disso, com suas frases longas, textos sem pontuação e devaneios. E Salles foi fiel até no estilo.

Os mais fortes entenderão.

Ps. Perguntei pro Dodô Azevedo, autor do livro Fé na estrada (que conta sua experiência seguindo os passos de Kerouac), sobre o método dele ao escrever o livro, publicado e lançado pela Leya. Você pode conferir o vídeo aqui – no episódio 01 Parte 1 do Diário)! Divirta-se! Tem também Walter Salles falando sobre o processo criativo – no episódio 01 – Parte 2!