Carta para o Tempo

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Querido Tempo,

Lendo sobre pensadores e poetas representativos vi um autor divagar sobre ser ou não ser dono do tempo, servo ou não de seus caprichos, e se alguém de fato está ou não à sua frente. Não sei se você considera isso ofensivo, se dizer que alguém está acima de você, como forma de superioridade, ou se o atinge de alguma maneira; mas, para ser sincera, achei curioso. Mas tudo isso é ilusão, certo?

Não me importa saber, porém, se entendo mais ou melhor que o restante; não estou mais interessada em prever as mudanças dos valores que os valores em si. Se estou adiantada ou atrasada… A verdade, se é que posso dizer que isso existe, é que tenho medo de você. Eu o respeito mais que tudo, é claro. Sou apenas uma serva, sua escrava, à mercê de suas vontades. Você dita a duração, o início e o fim; a hierarquia, a herança, a evolução e as descobertas. Tempo, você dita a minha existência! Sem você, eu não valorizaria o acaso, nem as experiências, muito menos a profundidade de um olhar. Caramba! Eu não valorizaria a diferença do brilho e da cor entre os olhos de um jovem e do mais vivido.

Mas, Tempo, meu mestre, se você oferece a encruzilhada mortal dos caminhos inexplorados para que eu faça escolhas, você deve ter algum acordo com elas! Deve confiar nelas e conhecer também as consequências! Talvez todas elas sejam válidas, todas elas tenham importância… É por esse motivo, apesar de ser meu carrasco, que você permite que eu tenha escolha sobre o que fazer com a minha mortalidade, não é?

Pensando bem… você é que se entrega a mim para que eu faça com você o que eu quiser… É a mim que você confia, não nas escolhas ou nas consequências! Você confia em mim… cegamente… Tempo, eu não sabia!

Acho que eu tinha menos medo quando acreditava que você tinha total controle sobre meus caminhos… o que vou fazer agora que sei que as rédeas são minhas? Como ser a protagonista de um espetáculo com tantos personagens? Como ser livre se não posso me distanciar de sua voz? Como me libertar se estou cada vez mais acorrentada a você? E chegando cada vez mais perto do seu aperto?

Tempo, meu mentor, continue sussurrando, ainda não estou pronta para a maior das estradas e preciso de sua liderança. Pelo menos por enquanto. Pelo menos até o amanhã. Pelo menos até que a distância me mostre o “nada é para sempre” que você tanto insiste em me ensinar.

Confie em mim. Não vou decepcioná-lo.
Eu prometo.

Sempre sua,
Vida

***

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